sábado, dezembro 17

Vazio

A casa era dela. Os tapetes, as tigelas, as xícaras. Os baldes, os panos, os sofás, as cortinas. Até mesmo a caneca da Oktoberfest que ela havia comprado para ele era dela. Tudo era dela. As correspondências, a geladeira, as frutas, os animais, os quadros, porta-retratos, as pias, o chuveiro. Era tudo dela.
O que ele fazia ali, se ela não estava mais?

quarta-feira, dezembro 14

Despertar

Seus olhos se abriram e se fecharam. Nesse segundo só deu para ver: eram castanhos. Um sorriso, um suspiro, um sonhar. De olhos fechados, vendo o mundo como se estivesse embaixo da água. Os sons distorcidos, a luz difusa. Quase um comercial de perfume maluco que passa na tevê a cabo... Sentia tudo na pele e, como que uma bailarina...
Bailarina...
Bailarina...
Bailarina...
Sabia que quando abrisse os olhos, de manhã, após despertar, tudo, nunca mais seria igual. Mas, mesmo assim, passaria rimel e saíria pela porta da frente, tal como uma bailarina.
Bailarina.

Vai saber quando

Vai saber quando...
Na volta prá casa, debaixo de chuva,
no ônibus lotado.
Na padaria, no cinema.
Na festa de aniversário da vó.
No jardim, debaixo da árvore.
Vai saber quando...

terça-feira, setembro 6

Das Decepções

Notas Iniciais

Embora não pareça, esse post será positivo. Na verdade, ele é mais uma investigação do que seria se decepcionar e do porquê nos decepcionamos nas nossas relações com pessoas, animais, coisas e escolhas. Espero que isso lhes seja útil, pelo menos no sentido de reflexão sobre a maneira como você se relaciona com o seu universo.

Por que nos decepcionamos?

Hume já nos falava de uma vida mental ativa e viva, ou seja, tudo o que pensamos, conhecemos, nosso preceitos, preconceitos, nossas imagens mentais que representam coisas, tudo isso, toda a nossa atividade mental é viva na perspectiva desse autor. Viva no sentido de que tem vida, se modifica, evolui, morre. Por esse motivo, nosso pensamento pode mudar ao longo dos anos, porque ele é vivo. Agora, o que isso tem a ver com o tema? Eu lhes digo: tudo.
Parto do princípio de que todos concordam que as decepções ocorrem quando queremos uma coisa e essa coisa não acontece ou não acontece do jeito que queremos. Muito bem, nesse sentido, querer que as coisas aconteçam de um certo jeito está baseado na nossa vida mental, ou seja, queremos que as coisas sejam o que temos em nossa mente que elas deveria ser e não o que elas são de fato. O tempo todo estamos fazendo representações mentais do futuro, do namorado(a), do(a) melhor amigo(a), dos(as) filhos(as), das mães e até mesmo de coisas como filmes, lanches, sofás, cadeiras, mesas. E aí? Onde entra a decpção nisso? 
Fica mais do que claro, que quando essas representações mentais nossas não se encaixam na realidade, ficamos decepcionados. Ficamos decepcionados porque o(a) namorado(a) não quer mais agir de um determinado jeito, porque a mesa da cozinha que foi presente de casamento não vai durar mais que 2 meses, porque o lanche que paramos para comer na esquina não estava tão bom quanto poderia estar e assim vai. Nos decepcionamos porque não conseguimos separar aquilo que pensamos que é daquilo que realmente é. E isso não é uma tarefa fácil, é dificil desapegar da vida mental por alguns instantes e deixar que a realidade surpreenda-nos.

O movimento da decepção.

Pode não parecer, mas a decepção tem um movimento. Não é um simples sentimento, que surge quando as coisas não saem como queremos. Nesse surgir, existe um movimento e de resistência e inteligência. Sim, inteligência. Todas as coisas inteligêntes se decepcionam, porque elas te a capacidade de inteligir, ou seja, perceber o que está a sua frente e processar aquilo mentalmente. A resistência se dá quando, nesse processo, ao invés de somente apreender existe a comparação do que se acabou de apreender com uma imagem mental pré-estabelecida. Normalmente, é imagem mental que "ganha" essa comparação. Daí nos decepcionamos.
Acontece que nada real pode ganhar de algo que existe só na sua cabeça. O principe encantado ou a princesa não deveriam competir com o parceiro real, porque é injusto com toda a relação, a moça por mais prendada que seja, nnca alcançará aquele nível de perfeição que a princesa mental tem, simplesmente porque é impossível, ser real tem suas limitações e suas vantagens também.
Entender que existe essa diferença é o primeiro passo para se ter relações saudáveis com tudo: desde de você mesmo até pessoas que você nunca viu. Desde seus objetos até futuro objetos que você terá.  O problema aqui não é ter uma vida mental viva e ativa, isso é necessário para que possamos viver, o problema se encontra em tentar adequar o que se tem na cabeça com o que está na realidade, quando na verdade esse movimento nem precisa existir.

Aceitação X Conformação - ou como evitar decepções.

É necessário que aceitemos que as coisas são como são, ou seja, as pessoas tem defeitos e vontades próprias, as coisas tem um tempo de vida útil e frustrações fazem parte da vida. Evitar se decepcionar tentando obter 100% de controle sobre a realidade é um suicidío mental e real. 
Existem 3 coisas que devemos saber que são "verdades" e que chegam a qualquer momento:
1- a morte vem para todos, isso é só uma questão de tempo.
2- nada é imutável.
3- não se pode prever o futuro.
Quando nos damos conta desta realidade, tudo o que fazemos é aceitar determinadas coisas. Porém, veja bem, não estou dizendo que devemos aceitar tudo e não tentar mudar nada. Mas, a aceitação da qual eu falo passa pelo viés da realidade, com o tempo, percebemos aquilo que pode fazer diferença e aquilo que é teimosia, o que poderia ser mudado e o que é apenas uma expectativa irreal. Aceitar não é conformar-se, aceitar é entender que muitas vezes fazemos as coisas e elas não saem como o planejado ou a maneira como o outro a recebe não era bem a que queríamos. 
Não dá prá prever o futuro nem como as pessoas vão entender seu comportamento, devemos aceitar isso, pois ao aceitar eu me torno real, estou conectado com aquilo que eu acredito e desejo e não me importo se não de certo na primeira vez. A aceitação dessas 3 verdades nos torna seres humanos reais e com expectativas reais sobre as coisas e pessoas e dessa forma, 95% das nossas frustrações se vão, porque deixaremos de tentar adequar a realidade a nossa vida mental, mas passaremos a enxergar ela como ela é.

quinta-feira, setembro 1

Considerações

Cansei de brigar pelo pouco que deveria receber. Não por ter algum status com alguém, mas porque sou humana, mereço esse mínimo por ser o que eu sou. Não vou mais brigar, não quero mais. Não importa mais. Eu tentei e fiz o que eu pude, mas as vezes isso é tudo o que podemos fazer.
Não vou mais dar a cara a tapa, mostrar um caminho, buscar algo melhor. Não faz mais sentido e se fizesse, talvez não houvesse merecimento. Simples assim, como uma roupa que não serve mais.

quarta-feira, agosto 24

Se reapaixonar é possível?

Notas Iniciais

De uns tempos prá cá, muitas pessoas tem falado que para um casal permanecer unido é necessário se reapaixonar. No entanto, embora meu lado idealista diga ser isso possível, uma outra coisa me faz pensar se isso realmente poderia se dar no plano prático das coisas. Portanto, vamos ao tema.

A possibilidade e o amor.

Me ter defendido anteriormente que era possivel uma pessoa se apaixonar por outras pessoas enquanto estava com uma e que isso não desfazia o primeiro sentimento - relacionado a primeira pessoa - mas, se apaixonar pela mesma pessoa várias vezes é possível? Ou será que nunca deixamos de estar apaixonados?
O termo apaixonado aqui não quer dizer aquela loucura, mas sim, somente, ter um sentimento que faça com que o sujeito queira estar/manter um relacionamento. Ou seja, não há nada de mirabolante em nada do que estou dizendo.
Muito bem, a pergunta foi simples, mas a resposta talvez não seja e talvez não exista. Analisando tudo o que eu penso, eu tendo a dizer que nunca deixamos de gostar daquela pessoa, mas sim, que esse sentimento varia de intensidade de tempos em tempos. Sendo assim: não, não nos reapaixonamos pela pessoa.
Mas, então o que acontece?

Reapaixonar-se ou redescobrir-se?

Imagino que o que acontece seja sempre uma redescoberta do outro. As pessoas mudam de interesses, de posturas, de idéias e o nosso sentimento por ela sofre todas essas variações. Sofre no sentido de ser afetado e não de sofrer mesmo. Quando redescobrimos o outro, podemos gostar ou não do que vemos. Muitas vezes, casais enfrentam crises por causa disso. A nova orientação do parceiro tem o poder de gerar um conflito que pode até fazer com que se separem.
No entanto esse reapaixonar-se, essa redescoberta é muito importante para que o relacionamento evolua. Pensar que a pessoa que está ao seu lado se mantém a mesma desde quando você a conheceu é o mesmo que dizer que a água não evapora. As mudanças, mesmo que sutis, se não percebidas podem gerar um encanto ao contrário.
Todo mundo muda. O sentimento muda junto. Pode virar amizade, pode se tornar amor, pode ficar dormente, pode virar até mesmo raiva; mas o que importa é que ele muda. E que aa redescoberta desse sentimento e do outro é necessária para um relacionamento que pretende se manter.
Como nem sempre o outro se torna o que queremos, posso ousar dizer que esse "reapaixonar-se" se deva, principalmente, pela descoberta dos aspectos positivos que o outro tem e, também, pela compreensão da perspectiva do outro nessa história.
Portanto, acabei de desdizer o que eu disse, vendo que é possível se reapaixonar sim, mas não no sentido de retomada, mas sim, no de continuidade.

terça-feira, agosto 23

Ele - Desilusão

Dizia: faça o que você achar melhor.

Ela - Desilusão

Pensou o seguinte: 2 anos acabam com 2 pares de mensagem.

O meu não.

O meu não mais sincero é meu silêncio.

Eu não te amo.

Tudo se perde, se esquece, se deixa passar. O descuido, o desleixo, tudo acumula no dia-a-dia. É preciso reinventar, recomprometer-se, rencontrar-se. Mas, quem? O meu antigo coração é novo e está à espera do novo mais uma vez.
Tudo o que passou, passou. Não volta mais. O desperdício e o desprezo acabam por mostrar que nada é o suficiente para pessoas que tem um buraco negro no lugar do coração.
É impossivel amar sem que haja amor do outro lado.

terça-feira, junho 14

Morador de rua cuida de 10 cães


Rogério é um morador de rua que vive numa carroça coberta com 10 cães, entre eles, alguns encontrados em condições extremas - espancados pelos antigos donos, jogados pela janela de um caminhão, doentes, abandonados e esfomeados, largados ao léu, amarrados em postes etc.


Vive de doações de ração, remédio e comida. Os cães são muito bem tratados, mas dependem do amor e do carinho que o Rogério tem por eles e da caridade daqueles que o conhecem e admiram.



Ele fica próximo a pontos de ônibus na avenida Georges Corbusier, após a rua Jequitibás (região do Jabaquara, em São Paulo ), os cães não atrapalham ninguém, são super-educados e simpáticos (todos castrado(a)s) e passam boa parte do dia dentro da carroça.


Ele é muito querido pelos comerciantes da região mas, o problema é durante a madrugada, bêbados ao volante e garotos usuários de droga da região tem sido um constante perigo.Rogerio ja foi espancado por jovens que chegaram a jogar alcool nele enquanto dormia com os cães dentro da carroça, por sorte não tiveram tempo de acender o fósforo, pois um dos cães latiu e o avisou do perigo.


Ele é um exemplo de como uma pessoa pode se doar. Alguém na condição dele, poderia ter escolhido outros caminhos, mas Rogério demonstrou coragem e decidiu perseverar. Além de ser uma pessoa de muito valor , faz caridade prá deixar muito bacana por aí no chinelo. Sua presença ilumina os lugares por onde passa, mas ele já está cansado e também não é mais tão jovem assim.


São muitas as agressões que ele e os cachorros vêm sofrendo, que vão desde o assalto ao espancamento, até atentados contra a vida como esfaqueamento e atropelamento. Enfim, é muito sofrimento para alguém que luta tanto. Na região todos o conhecem e apreciam, tanto que na última vez que uma turma veio bater nele porque queriam roubar suas coisas, o dono de um bar próximo saiu para enfrentar os safados e começou a dar tiros, colocando todos em fuga. Mesmo assim, o Rogério passou dois dias no hospital por conta dos machucados recebidos e, se não fosse pela intervenção do dono do bar, os cachorros já seriam órfãos.

Assim, diante de tudo isso, peço que ajudem a divulgar esta história para que o Rogério possa conseguir uma oportunidade que lhe propicie melhores condições de moradia e de vida, em qualquer cidade, para que ele possa cuidar não somente dos seus, mas de outros tantos cães abandonados por esse Brasil e que precisam de muitos cuidados e de carinho. Já lhe ofereceram abrigo mas, desde que os cães ficassem para trás, o Rogério recusou, pois para ele, estes cães são como filhos; são sua familia.

Outro dia ele estava levando todos os cães a um pet shop para tomarem banho - 11 cachorrinhos felizes – eram originalmente 10, mas agora apareceu mais um, um fox paulistinha que eu não conheci porque no momento que conversavamos estava no banho. Ele disse que havia passado remédio contra pulgas nos cachorros e que o tal remédio é meio melado, e então teve que dar banho em toda a tropa. Perguntei quanto ele iria gastar para dar banho em todos os cachorros e ele, sorrindo como sempre, disse que a moça do pet shop o ajudava e não cobrava nada. Santa alma! Aí eu perguntei a ele – e você? Onde toma banho? Ele me respondeu que tomava banho no posto de gasolina da esquina, banho frio, gelado mesmo. Disse que como era nordestino, estava acostumado.

`As vezes faltam palavras que possam definir a grandeza de uma alma como esta, que mesmo não tendo quase nada para si, dá o pouco que tem para minorar o sofrimento desses pobres animais de rua. Muito mais importante dos que a aparência, a riqueza e o poder ostentado pelas pessoas, são suas atitudes e seus valores éticos e espirituais.
Cada dia que passa, aprendo a admirar cada vez mais o ser humano que ele é.

Abraços
Obrigado e ajudem a divulgar esta bonita história.
C r e a t i v e W o r k

domingo, maio 15

E agora: um pouco de filosofia barata.

Afinal de contas, todo mundo gosta de um pouco de baboseira.

quinta-feira, abril 28

A ilusão de dizer "eu não te amo mais".

Notas Iniciais.


Devido algumas reflexões levantadas por amigos em e-mails, resolvi escrever sobre esse tema. Muitas vezes é mais fácil acreditar que deixamos de amar alguém. Muitas vezes é melhor acreditar nisso. Infelizmente, isso não ocorre somente nos relacionamentos amorosos, mas também, em relacionamentos amistosos, fraternais e parentais. Provavelmente existe alguém em nossas vidas que cumpre ou cumprirá o papel de nos fazer ter a maior de todas as decepções do mundo. Porém, eu me pergunto: isso é o suficiente para deixarmos de amar alguém?



O Amor e suas formas derivadas.


Eu já procurei trabalhar isso anteriormente em um texto chamado: Amor e sentimentos que derivam. Aparentemente, não consegui abordar isso de forma suficiente para que ficasse claro. E mais, talvez seja hora de retomar velhas preocupações.

No que concerne a definição de amor, eu sei tanto quanto qualquer um. Porém, tendo embasado toda minha visão em um sistema cristão – que foi onde fui educada e onde decidi permanecer – o amor é um sentimento que faz parte do ser humano tanto quanto a raiva, o ciúme e mesmo o egoísmo e a indiferença. E é por ele que aprendemos e florescemos. Claro que isso não ocorre sempre dessa maneira. Porém, mesmo fingindo que as coisas não se dêem assim, não posso conceber que uma mãe ensine seu filho e o proteja puramente por instinto. Existe algo mais nessa relação, algo que, na humanidade adquire a forma de amor. Não posso falar pelos outros animais, não tenho cacife para tanto.

Voltando a questão da derivação, penso que existe o primeiro amor que sentimos: o amor materno. A falta desse, penso eu, acarreta alguns problemas no futuro. Vejo que uma família sólida consegue passar a ideia de que aquele ser faz parte de algo completo e seguro, fortalecendo nele polos positivos no que concerne à sentimentos e relacionamentos. Mais uma vez, nem sempre isso é verdade.

Através do primeiro amor com o qual temos contato, podemos derivar outros tipos de amor - como por exemplo, a amizade, o companheirismo, a solidariedade e a compaixão - que se estendem à pessoas inicialmente ou permanentemente estranhas a nós. Essas formas derivadas de amor só existem porque existe um amor que os precede, um amor que muitas pessoas não conseguem acreditar que exista ou mesmo conseguem sentir. Mas, eu não sou uma dessas pessoas. Em suma, existe um amor, mesmo que ele seja puramente conceitual e ideal e que só sirva para “guiar” os homens na terra.


Amor acaba?


Essa é uma grande questão para mim. Parece óbvia minha resposta, seguindo os passos que tenho dado neste post. Embora idealista e um tanto quanto fantasioso, eu acredito no amor e que ele não acaba. Não é um amor a qualquer custo, que, sob todas as circunstâncias mais malucas do mundo, ele permanecerá inalterado.

Muito pelo contrário. Acredito que ele não acabe. Porém, se somos seres dinâmicos, porque nossos sentimentos deveriam ser estáticos e fixos? De maneira alguma acredito que um casal se ame da mesma forma todos os dias. Nem que o amor de uma mãe não sofra alterações ou mesmo dois amigos se apreciem da mesma forma como uma receita que não muda há 25 anos. Não é isso.

Como eu mesmo já disse, o amor se deriva ao longo de nossas vidas e relacionamentos que mantemos ou descartamos. Se ele “muda” de pessoa para pessoa, porque não muda durante uma relação? Pensando bem, isso é mais do que provável, pois já vi vários relacionamentos amorosos terminarem porque havia “amizade demais” entre o casal. E sendo assim, poderíamos dizer que o amor acaba? Não nesse sentido.


O amor, os homens e suas ilusões.


Não posso dizer que todo mundo ame. Muito menos que todas as pessoas conheçam o amor. Não tenho pretensões universalistas. Meu ponto de vista é só mais uma perspectiva no caleidoscópio. Mas, posso dizer que uma grande parcela das pessoas já se iludiram de uma maneira geral. As ilusões amorosas são as campeãs no top 10 das desilusões que as pessoas tem durante a vida. Até os poetas se perguntam “quem nunca se desiludiu no amor”?

Porém, a ilusão que eu trago aqui é uma diferente. A ilusão de dizer que não amamos mais alguém. Vou atentar para a situação onde os casais se separam amigavelmente, sem transtornos. Ou quando ainda se pode manter contato e preocupação com o companheiro. Ou mesmo naquelas inúmeras tentativas de consertar algo que não tem funcionado em um relacionamento para que ele volte a ser proveitoso e evolua.

Nesses casos a ilusão é acreditar que acabou o amor, que ele deixou de existir e só sobraram frangalhos do amor que um dia existiu. Por que, então, se preocupar com o outro? Por que buscar uma saída? Por que não aceitar que isso que está por trás da tentativa, da preocupação, do famoso “carinho especial” não é o amor derivado?

O amor se destila durante as relações que estabelecemos. Ao longo de nossas escolhas feitas e não feitas. Depois de um tempo conhecendo a pessoa, convivendo com ela, podemos simplesmente dizer que não a amamos mais? Esse carinho e essa preocupação surgem de onde? De onde vem a vontade de tentar mais uma vez? Vem do amor. Ideal, primeiro e que se transforma em suas derivações naturais.

Lucidez

Eu ainda acredito que tudo está dentro da minha cabeça.
Delirante, eu acredito que vejo e falo.
Sinto as texturas.
Ouço, acreditando.
Eu ainda acredito que as coisas existem porque existem
Sonolento, o tempo passa, porque existe.
Na minha lucidez
Tudo o que eu vivo e toco
É tudo aquilo o que eu invento.
Eu ainda acredito que tudo está dentro da minha cabeça.
Eu ainda acredito.

quinta-feira, março 24

De príncipe a sapo.

Notas Iniciais.

Não tem o que comentar, o título é auto-explicativo. As vezes estamos com pessoas legais, interessantes, mas de repente, em menos de um minuto tudo desaba e o que sobra em pé não é legal de ver. E aí nada além de uma barra de chocolate e um blog para escrever esse tipo de bobagens.

A metamorfose.

Realmente meninas, as vezes parece que estamos no livro do Kafka, a diferença é que o que ele descreve em um bom bocado de páginas acontece, para nós em segundos. E o que leva à essa transformação? O trabalho? Um pelo encravado? Uma espinha? Você não percebeu e chamou ele pelo nome do ex? O que aconteceu? Ninguém sabe. Sabemos é que se estivéssemos nos braços dele naquele momento ele teria nos atirado a milhas de distância.
Claro, exagero meu. Mas, a verdade é: sendo rápida ou não, essa metamorfose acontece. Um dia ele simplesmente não é mais o mesmo. E, enquanto você está preocupada com seu corpo, que já começa a mostrar os sinais de que está perdendo a batalha contra a idade e encara bravamente a crise dos quase 30 e vai prá academia ficar malhada e gata; ele, por sua vez, acaba descobrindo o adolescente reprimido dele e vai atrás de video games e quem sabe quer começar a fazer aulas de violão.
Diferenças a parte, chega um momento em que ele simplesmente não está mais nem aí. Não repara nem se você cortou o cabelo e só te escuta quando você grita - e ainda acrescenta um cínico: calma, não precisa ficar nervosa. O que fazemos quando estamos nessa situação? Qual a saída? Talvez arrumar um adolescente real seja mais fácil do que permanecer nisso. Mas e quando a gente gosta da pessoa metamorfoseada?

Respostas nem tão respostas assim.

A verdade é: aquele lance se anular e deixar que ele descarregue as frustrações das escolhas dele em você não vale mais um tostão furado. Outra verdade é: não adianta esperar - ele nunca mais será o mesmo e provavelmente isso será só uma fase. Devemos aguentar firme então? A resposta é sim. Mas, o diálogo deve existir ou persistir em todos os momentos dos relacionamentos. Não tem essa de que não dá prá conversar, se o cara arruma tempo prá ver videos com os amigos, terá de arrumar um tempo prá você. Caso contrário, gata, ele não está nem aí mesmo.
Paciência é a resposta, mas não uma garantia. Pode ser tanto uma fase, quanto um mudança real e permanente. E no fim das contas: cada caso é um caso. As vezes essa transformação indica alguns problemas que não foram resolvidos e que agora precisam se solucionar. Caso haja concordância isso pode ser perfeitamente superado. Caso não, melhor dar linha pipa e cair na pista novamente.



quarta-feira, março 9

Raiva - Ele

Ele sabia que ela estava brava. Sabia que ela não o amava mais e nem gostava mais dele. Sabia que isso a protegia e a mantinha distante da pessoa que a machucara tanto. Só não sabia quanto tempo aquilo duraria.
As vezes havia um lampejo e ela voltava a ser doce e carinhosa e logo depois disso ela se fechava e se afastava, abandonando-o com um personalidade fria e indiferente, que não conversava, nem mostrava nada fora desprezo e raiva.
Ele não sabia o que fazer. Já havia feito promessas, dito que as coisas mudariam, mas ela sempre ia embora e deixava somente seu lado mau do lado dele. Talvez ele pensasse que depois de um tempo tudo ficaria bem. Gostava dela, porém, não dizia a ela o que ela precisava ouvir por não saber se aquilo seria bom ou não, e também por não saber se era aquilo o que sentia.
Mas, no fundo, sabia que ela só pensaria em voltar para ele se ele dissesse aquelas palavras e se sentisse que elas eram de verdade. Havia uma grande chance de tudo nem começar a melhorar e ele sentia isso e se esforçava para que isso não acontecesse.
No entanto, o fato de simplesmente não saber o que fazer com a raiva que ela sentia agora atrapalhava um pouco as coisas. As projeções e as energias estavam pesadas.

Raiva - Ela

Toda aquela raiva que ela não queria sentir, ela passou a sentir. Não queria, lutava contra isso, mas a confiança quebrada, as mentiras, os sonhos quebrados - tudo isso vinha a tona nos momentos mais inapropriados.
Quanto mais tempo longe dele ela passasse melhor. ela não conseguia ser agradável. haviam muitas coisas entaladas na sua garganta, mas ele achava que o assunto já estava resolvido e ela não queria voltar em uma discussão sem fim.
Sabia que se ela tinha decido estar do lado dele teria que superar isso. Mas esse era o inferno dela. Que infelizmente, respingava nele. E ao longo de todo esse processo ela o abandonara para não sentir mais raiva, ficar mais incomodada com os carinhos que lhes pareciam falsos ou mesmo ser indiferente a qualquer coisa que ele fizesse.
Não queria passar muito tempo fingindo, mas também não queria tomar a decisão de voltar definitivamente agora. Quanto mais ela adiasse melhor seria. Depois de tantos fins, o fim deles chegaria de qualquer jeito ela pensava. E assim seguiria até onde desse.

Mudanças (parte II) - Ele

Agora que ele havia resolvido ficar e encarar alguns fatos de sua vida achava que seria possível consertar algumas coisas com ela e quem saber resgatar o sentimento que havia sentido a um mês e meio atrás.
Não sabia ao certo o que sentia. Dizia que gostava dela, mas não a amava. No fundo esperava que isso fosse o suficiente, mas sabia que não era. Olhava para ela e via que ela não era mais ela. Que as coisas haviam mudado. Seu choro era um choro de fim e ele percebia que ela não estava feliz pela proposta dele. E percebia que se ela voltasse, não seria ela ao lado dele. Talvez teria carinho, talvez teria companhia. Mas no final das contas, o que ele teria mesmo era muito trabalho.
A confiança que ela depositara nele sem hesitação havia sido quebrada - de novo. E ambos sabiam que ela estava fechada para ele, em muitos aspectos importantes para que um relacionamento progrida.
Talvez ele pensasse agora: "o que foi que eu fiz?" - mas talvez só pensasse que ela deveria aceitar sua proposta porque até ontem ela era louca por ele.

Mudanças (parte II) - Ela

Estavam abraçados, ela havia decidido que o ajudaria com as coisas, que estaria do lado dele. Não queria carregar raiva de nada e agora, eles não tinham nada.
O jeito com que ele havia aberto a porta, até parecia que ele tinha ficado feliz em vê-la - mas ela não se deixou enganar enquanto estavam em silêncio ela dizia para si mesma que tudo havia acabado. Sentia-se diferente, melhor. Sentia como se todo seu sex apeal tivesse voltado. Estava bem, com romances esporádicos e ele, ela sabia, seria só mais desses que ela encontrava para passar o tempo. Pensava firmemente nisso. Tanto que falou isso em voz alta, falou que tudo havia acabado.
Chorou um choro de luto, de fim. Não era desespero, não era dor nem solidão ou abandono. Era o choro de quem lembra do passado e sente saudades porque sabe que aquilo nunca mais vai voltar.
"Vamos ficar juntos, vamos ficar bem gatinha." - ele disse. E ela chorou mais ao dizer que não dava para ficar bem de novo.
No fundo, ela não queria.

Mudanças (parte I) - Ele

Havia tomado uma decisão: era demais manter um relacionamento. Ele não tinha capacidade, estrutura. Queria mudar sua vida, iria embora dali e começaria de novo em outro lugar. Iria deixar tudo para trás, ele já havia feito tudo ali e estava com a sensação firme de que tudo iria mudar.
Estava deixando ela para trás, sabia disso, embora não quisesse admitir. Embora não admitisse que a amava. Até porque ele não sabia o que era amar e no fundo, espera algo grandioso. Via ela chorando e não sabia o que fazer. Dizia que ela deveria aceitar, mas tinha um tijolo bem grande de culpa por saber ter iludido ela nos últimos dias com palavras doces. Sabia, porém, que ela se viraria bem, dos dois ela era a que mais tinha capacidade de se reerguer e continuar a vida. Ele demorara dois anos pra decidir algo por ele mesmo e ainda estava em dúvidas. "Ela não" - ele pensava enquanto ela soluçava - "ela é determinada, não tem medo de viver.".
E foi com esse pensamento que se levantou e foi embora, deixando para trás uma mulher em pedaços, no chão da cozinha, rezando.

Mudanças (parte I) - Ela

Depois de dias felizes um ao lado do outro, ela se depara com a infeliz mudança do destino: ele havia voltado para ela, mas não ficaria com ela por muito tempo. Como o suspiro do moribundo antes da morte, assim foi aqueles momentos últimos de amor que ela teve dele.
Tudo estava mudado. Ele a jogara fora novamente. Se sentia suja, usada como uma peça de roupa descartável. Sentia-se invadida. Tinha raiva e pena dele. Chorava compulsivamente sentada no chão da cozinha e em seus pensamentos só havia um prece: "Por favor Senhor Deus, tem piedade e afasta esse sentimento ruim do meu coração.". Sim, ela pedia para que nunca mais sentisse nada por ele. Para que ele nunca mais retornasse à sua porta e para que ela não precisasse ter raiva, vergonha ou medo de tudo aquilo que ia embora e aquilo que chegava de novo.
O ar faltava, sumia. As mãos tremiam e ela chorava. Estava abandonada por ele mais um vez.

Reencontro - Ele

Dentro de seu peito um sentimento enorme era transbordado. Como não percebera antes que a mulher que ele precisava, queria, desejava e buscava estava ali ao lado dele? O tempo afastado havia sido positivo, ele pensara sobre as coisas e descobrira-se apaixonado por ela novamente.
Nestes dias estar com ela e sentir sua pele macia era tudo o que desejava. Aquela insanidade toda que ambos haviam criado tinha finalmente ido embora.
Porém, algo em sua mente não o deixava tranqüilo, como se num sonho bom houvesse sempre o medo de acordar e tudo desaparecer na sua frente. Lutava com ele mesmo para manter as coisas tranqüilas e calmas. Afinal de contas, depois de todos os despeitos e humilhações ela o havia aceitado de volta, com os braços abertos e com todo o carinho que ele não imaginava receber tão cedo. Ela o perdoara e ele deveria fazer o melhor que pudesse. E mesmo inquieto ele queria dar o melhor à ela.

Reencontro - Ela

Estava feliz. Ele havia voltado para ela do jeito que ela sempre o tivera antes. Amável, carinhoso, apaixonado. Não podia querer outra coisa da vida. Pensava no futuro, nas coisas que eles iriam fazer juntos. Estava em paz.
Olhava nos olhos dele e o reconhecia, aquela sombra fora embora. Estavam bem e começavam o ano da melhor maneira possível. "Aquele pesadelo acabou" - pensava ela. E os ventos de janeiro sopravam calmos e tranqüilos. Havia paz e diálogo. Tudo parecia ter sido pausado e o tempo era só deles naquele momento.