quinta-feira, abril 28

A ilusão de dizer "eu não te amo mais".

Notas Iniciais.


Devido algumas reflexões levantadas por amigos em e-mails, resolvi escrever sobre esse tema. Muitas vezes é mais fácil acreditar que deixamos de amar alguém. Muitas vezes é melhor acreditar nisso. Infelizmente, isso não ocorre somente nos relacionamentos amorosos, mas também, em relacionamentos amistosos, fraternais e parentais. Provavelmente existe alguém em nossas vidas que cumpre ou cumprirá o papel de nos fazer ter a maior de todas as decepções do mundo. Porém, eu me pergunto: isso é o suficiente para deixarmos de amar alguém?



O Amor e suas formas derivadas.


Eu já procurei trabalhar isso anteriormente em um texto chamado: Amor e sentimentos que derivam. Aparentemente, não consegui abordar isso de forma suficiente para que ficasse claro. E mais, talvez seja hora de retomar velhas preocupações.

No que concerne a definição de amor, eu sei tanto quanto qualquer um. Porém, tendo embasado toda minha visão em um sistema cristão – que foi onde fui educada e onde decidi permanecer – o amor é um sentimento que faz parte do ser humano tanto quanto a raiva, o ciúme e mesmo o egoísmo e a indiferença. E é por ele que aprendemos e florescemos. Claro que isso não ocorre sempre dessa maneira. Porém, mesmo fingindo que as coisas não se dêem assim, não posso conceber que uma mãe ensine seu filho e o proteja puramente por instinto. Existe algo mais nessa relação, algo que, na humanidade adquire a forma de amor. Não posso falar pelos outros animais, não tenho cacife para tanto.

Voltando a questão da derivação, penso que existe o primeiro amor que sentimos: o amor materno. A falta desse, penso eu, acarreta alguns problemas no futuro. Vejo que uma família sólida consegue passar a ideia de que aquele ser faz parte de algo completo e seguro, fortalecendo nele polos positivos no que concerne à sentimentos e relacionamentos. Mais uma vez, nem sempre isso é verdade.

Através do primeiro amor com o qual temos contato, podemos derivar outros tipos de amor - como por exemplo, a amizade, o companheirismo, a solidariedade e a compaixão - que se estendem à pessoas inicialmente ou permanentemente estranhas a nós. Essas formas derivadas de amor só existem porque existe um amor que os precede, um amor que muitas pessoas não conseguem acreditar que exista ou mesmo conseguem sentir. Mas, eu não sou uma dessas pessoas. Em suma, existe um amor, mesmo que ele seja puramente conceitual e ideal e que só sirva para “guiar” os homens na terra.


Amor acaba?


Essa é uma grande questão para mim. Parece óbvia minha resposta, seguindo os passos que tenho dado neste post. Embora idealista e um tanto quanto fantasioso, eu acredito no amor e que ele não acaba. Não é um amor a qualquer custo, que, sob todas as circunstâncias mais malucas do mundo, ele permanecerá inalterado.

Muito pelo contrário. Acredito que ele não acabe. Porém, se somos seres dinâmicos, porque nossos sentimentos deveriam ser estáticos e fixos? De maneira alguma acredito que um casal se ame da mesma forma todos os dias. Nem que o amor de uma mãe não sofra alterações ou mesmo dois amigos se apreciem da mesma forma como uma receita que não muda há 25 anos. Não é isso.

Como eu mesmo já disse, o amor se deriva ao longo de nossas vidas e relacionamentos que mantemos ou descartamos. Se ele “muda” de pessoa para pessoa, porque não muda durante uma relação? Pensando bem, isso é mais do que provável, pois já vi vários relacionamentos amorosos terminarem porque havia “amizade demais” entre o casal. E sendo assim, poderíamos dizer que o amor acaba? Não nesse sentido.


O amor, os homens e suas ilusões.


Não posso dizer que todo mundo ame. Muito menos que todas as pessoas conheçam o amor. Não tenho pretensões universalistas. Meu ponto de vista é só mais uma perspectiva no caleidoscópio. Mas, posso dizer que uma grande parcela das pessoas já se iludiram de uma maneira geral. As ilusões amorosas são as campeãs no top 10 das desilusões que as pessoas tem durante a vida. Até os poetas se perguntam “quem nunca se desiludiu no amor”?

Porém, a ilusão que eu trago aqui é uma diferente. A ilusão de dizer que não amamos mais alguém. Vou atentar para a situação onde os casais se separam amigavelmente, sem transtornos. Ou quando ainda se pode manter contato e preocupação com o companheiro. Ou mesmo naquelas inúmeras tentativas de consertar algo que não tem funcionado em um relacionamento para que ele volte a ser proveitoso e evolua.

Nesses casos a ilusão é acreditar que acabou o amor, que ele deixou de existir e só sobraram frangalhos do amor que um dia existiu. Por que, então, se preocupar com o outro? Por que buscar uma saída? Por que não aceitar que isso que está por trás da tentativa, da preocupação, do famoso “carinho especial” não é o amor derivado?

O amor se destila durante as relações que estabelecemos. Ao longo de nossas escolhas feitas e não feitas. Depois de um tempo conhecendo a pessoa, convivendo com ela, podemos simplesmente dizer que não a amamos mais? Esse carinho e essa preocupação surgem de onde? De onde vem a vontade de tentar mais uma vez? Vem do amor. Ideal, primeiro e que se transforma em suas derivações naturais.

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