segunda-feira, dezembro 15

Lá é o Além

- Boa noite!
- Boa noite as 11 da manhã?
- Na minha vida é sempre noite. Jamais vivi de dia. Nunca houve luz, claridade, sol.Vivo em em noite eterna.E me condenaram a habitar esse prédio tão baixo. Veja, veja esse corredor! É o mesmo que mina de carvão, mina de sal, mina de ouro. Minas, minas, minas. Por isso vivemos curvados. O que quer?
- Falar com Cristina Agostinho.
- A linda escritora?Ah, sim, mora no 1936. No décimo nono. Não está.
- Sabe onde foi?
- Foi lá!
-Lá onde?
O porteiro aponta o lá.
- Sei, sei. Mas, dizer láé muito vago. Deve haver um endereço, um lugar preciso, exato. Lá pode ser qualquer parte do mundo.
- Não está aqui,portanto está lá. Só existe o aqui e o lá. Nada mais! Desde que criaram o qui e o lá, os dois estão em oposição.
- Concordo. Apenas quero que o senhor me conte onde é o lá. Esse para onde foi Cristina! 
O porteiro contemplou as montanhas ondulantes que se agutavam como papel batido pelo vento: 'um dia desses as montanhas vão se despregar do chão'.
- Lá é além. Tudo o que eu posso dizer é apontar om a mão, indiando:lá. Está vendo? Tudo aquilo? Ali é o Lá.

Ignácio de Loyola Brandão - O homem que odiava segunda-feira

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