sábado, maio 1

Confissões - Ela

Olhando-se no espelho sentia o vazio que andava habitando seu peito fisgar uma parte do seu coração e apertá-lo um pouco mais. sentiu o peso nos ombros, aquele peso, daquela vida que andava levando. Percebeu que poderia passar o resto da noite naquele banheiro, daquele apartamento especifico que ela tanto detestava. Via as olheiras. Sentia o cansaço, mesmo depois de ter dormido mais de 10 horas seguidas. Estava feia. Sentia-se feia. Mal-amada, esquecida pelos toques de carinho e amor que antes eram constantes e lhe davam a confortável sensação de serem para sempre. Mas, principalmente, de serem de verdade.
Estava cansada de brigar. Não conseguia mais chegar perto dele, sentir seus braços envolvendo-a. Achava falso, mentiroso, um ato da mais profunda dessensibilidade humana, se é que isso pode existir. Havia se mudado para algum lugar escondido em seu espírito, esperando que aquele inverno passasse. Não ligava. Não queria. A única coisa em que conseguia se focar era em si mesma e seus trabalhos manuais. Sentia-se só. Invisível. Para ele, para todo mundo. E talvez é assim que gostava de se sentir: invisível, muda, transparente, desaparecida. Só as olheiras poderiam traduzir toda a sua inexistência atual. E gostava disso: dessa melancolia programada; a agonia perto do fim. Gostava porque sabia que depois do inverno sempre vem a primavera.

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