quarta-feira, agosto 1

Carta ao passado

Estou escrevendo para dizer que ainda há muito de você em mim. Que ainda me lembro da desilusão e do sofrimento. Que ainda estão cravadas em mim todas as decepções e traições que você me causou.
Mas, escrevo, antes de mais nada, prá dizer que, apesar de tudo, a culpa não é tua.
Foi eu quem abriu a porta e permitiu que você entrasse, sentasse, colocasse seus pés sujos no sofa, emporcalhasse a casa. Foi quem não estabeleceu limite, que não soube me impor diante dos seus caprichos e da sua falta de comprometimento. Foi eu quem não soube amar você. A culpa, portanto, é minha em essência. Mas isso não importa agora.
Existe tristeza e pesar, porque ficou muito por ser feito. Muitas promessas, metas que não foram riscadas da lista semanal. Houve, também, muita falta, muita ausência. Falta de educação, ausência de carinho. Perdemos os limites do aceitável, do perdoável.
Fica aquele gosto amargo. Aquelas atitudes ensaiadas, aquelas mentiras e máscaras que só o tempo ou outra pessoa me ajudará a retirar. Trejeitos que me forcei a ter prá te agradar. Volume da voz que me forço usar porque ainda acho que ela te irrita. 
Rechaço o amor. Tenho raiva. Mágoa. Fica tudo preso na garganta. Aperto os dentes prá segurar as lágrimas. Respiro fundo. "Mais um dia. Mais um dia." eu penso. Cada hora, cada dia, cada semana, um pequeno passo aqui, outro ali.
O reencontro comigo mesma está demorando. Mas, aos poucos já me reconheço. Dói essa "inacabação" que a gente foi. Quis tanto, dei tanto, chorei tanto e prá que? 
Quando vejo o passado percebo que você levou mais do que precisava de mim. Levou meus sonhos, minha doçura. Levou minha meninice. Hoje olho prá mim e pareço séria. Também pudera. Me fizestes passar maus bocados e arracastes de mim a vontade de sorrir e cantar. Matou meu rouxinol.
A pergunta que fica é: por que? Por que tanta alegria em ver a decadência do outro? Por que tanto ódio direcionado a mim? Que graça tinha me ver sofrer? Chorar? Que graça tinha em me iludir? Por que?

Um comentário:

Osney disse...

Infelizmente as vezes não percebemos que boa parte das pessoas, agem de forma egoista,se esquecem o quanto é irracional provocar a dor em seus semelhantes, cegos em seu egocêntrismo criam um mundo em que mesmo quando se doam, é por alguma recompensa.
Se pudessem entender que a maior das dadivas é poder sentir a alegria da pessoa que amamos, quando através da sinceridade, promovemos a harmonia de um relacionamento. Só podemos colher a alegria de sermos humanos e agirmos como verdadeiros seres racionais.