domingo, outubro 17

O que a Filosofia me trouxe - Parte I.

Considerações Iniciais.

Neste post eu pretendo passar a idéia do que foi fazer filosofia nesses últimos 3 anos, aqui em Marília. Pretendo também expor quais foram as coisas que aprendi (ou desaprendi) ao longo desse período. E, muito embora eu odeie o academicismo, entendo que escrevo conforme ele e, além disso, considero válida a formalidade de escrever (em alguns momentos).
Antes de mais nada, aqueles que desejam fazer filosofia podem ler o post e pensar coisas ruins. Mas, acredito que isso é só uma forma de encarar e procurarei não deixar a neutralidade de lado. No entanto, o aviso é dado desde Dante: "Deixe suas esperanças para trás.".


Das perspectivas positivas.

Quando finalmente optei por estudar filosofia e me formar nessa área, a maioria das pessoas - após o estranhamento - me dizia que seria muito bom fazer filosofia, pois era um curso amplo que me daria uma visão de tudo e me traria uma maturidade intelectual muito grande. Mesmo que não fosse um curso prático, que "desse dinheiro" era uma boa opção para começar. Realmente, isso é verdade.
Dentro do curso de filosofia aprendi a ler atentamente e a respeitar as variáveis envolvidas na confecção de cada teoria metafísica, como por exemplo, a época, a história pessoal, a cultura, o ambiente,enfim tudo o que pode influenciar uma pessoa no momento em que ela escreve. Aprendi a avaliar com criticidade todas as linhas que vem na contra mão de uma favorita minha ou mesmo a escolhida para o momento. Além disso, essa mesma criticidade é levada para os outros campos da minha vida, principalmente em relação aos jornais, pesquisas científicas e até mesmo os modismos.
Fora isso, o aprendizado, mesmo que instrumental de uma outra língua e a formação intelectual travada através das inúmeras leituras podem ser um outro ponto a favor do curso de filosofia. A capacidade de poder contrapor idéias e relacioná-las quando necessário também faz parte do conjunto de coisas positivas da filosofia.
Em outras palavras, sempre há uma maneira de argumentar contra ou a favor de alguma idéia ou projeto. Sem querer recair em retórica, essa capacidade argumentativa, no plano introspectivo, pode trazer uma visão mais aguçada de determinado fato - justamente por se ver os vários lados de uma situação - e, por conseqüência, nos faz tomar uma decisão mais acertada dentro de um leque de opções.
Tudo isso, dentro de uma perspectiva que não se torna dogmática, mas flexível e viva, faz da filosofia uma fonte de encantamento, amadurecimento e formação do espírito no sentido hegeliano da coisa. Porém, assim como na filosofia, as coisas possuem várias maneiras de nos afetar. Por isso, agora, vou descrever o que aconteceu comigo no auge da minha leitura filosófica.

"A Filosofia é meu Pathos."

Heiddeger já dizia que o amor à filosofia não é feito nesse sentido romântico, bonito que se pensa e que nos é ensinado. Filosofia é Pathos - no pior sentido que existe. Segundo o autor citado, a filosofia exige uma entrega dolorosa e penosa àquele que dela se torna refém. Pior do que um amor de adolescente, a relação travada com a filosofia por seus amantes é tórrida e muitas vezes salpicada de ódio doentio. Não quero assustar ninguém. Aqueles que amam a filosofia chegaram a mesma conclusão que desejo expor aqui.
Tendo explicado isso, vou elucidar algumas coisas que senti e que se passaram comigo até que eu percebesse que isso era necessário para minha formação não só acadêmica mas pessoal também.

Percebi que a filosofia havia me captado quando decidia passar horas na leitura de um livro à ver aquele seriado que passava na tevê. Até aí, tudo bem. Porém, aos poucos, essa dedicação exclusiva à filosofia me deixou doente, perdi a noção do tempo e do espaço, tudo o que eu vivia parecia estar na minha cabeça e eu não conseguia mais distinguir entre realidade e não realidade. Durante alguém tempo até mesmo a minha percepção de dor se alterou. Eu não sentia meus pés no chão e tinha a sensação constante de desajuste e incompatibilidade social.
O isolamento me parecia a única opção, mas quanto mais isolada, mas perdia a realidade de mim e das coisas. As palavras me fugiam da mente e eu preferia ficar sem falar. Eu não conseguia terminar um raciocínio por já pensar nas formas que ele poderia ser contraposto. Me perdia na cidade como que nunca tivesse andando naquelas ruas. Ia prá faculdade e acabava em um outro lugar. Em suma, fiquei desorientada.

Fitulidade como alternativa para o pathos.

Quando me vi perdida no meio das palavras, na linha do tempo, tive medo. Uma angústia muito grande tomou conta de mim, pensava que seria internada, que perderia todas as minha habilidades que demorei tanto tempo prá conseguir. A verdade é que eu me sentia mutilada, violentada. Minha cabeça não parava um minuto ou não funcionava de maneira nenhuma.
Quase perdi meus amigos, quase perdi meu namorado, quase me perdi dentro de um buraco que cavei em minha mente. E quando eu decidi que precisava de ajuda prá sair dali, fui atrás de fazer alguma coisa nada filosófica.
Comecei assistindo novelas, depois fui à academia e depois me dedica à coisas fúteis como croche, tricô, origami. E através deles comecei a encontrar de novo aquilo que tinha perdido. A percepção dos dias voltou, aos poucos a das horas também. As sensações físicas foram aos poucos se normalizando e minhas reações à algumas coisas voltaram ao normal pouco a pouco. Só de sair com o cachorro para passear já percebia o normativo encontrando seu lugar na minha cabeça. E isso me acalmava.

"Eu só sei fazer filosofia".

Ignorando o que seja "fazer filosofia" declaro que só sei fazer isso. Aceitar que nunca mais pensaria da mesma maneira e que na maior parte do tempo ficarei a margem daquilo dito normal foi o passo principal para aceitar minha nova realidade. Declaro também que a filosofia me amputou as pernas e os braços me deixando incapacitada de escolher outra coisa. Eu respiro filosofia. Eu só sei fazer isso. Não consigo mais não "ser assim". Posso até mesmo mudar de profissão daqui algum tempo, mas serei prá sempre patológicamente filosófica.
Embora essa entrega e o processo que se deu comigo para a formação do meu espírito filosófico tenha sido doloroso e atordoante, encaro isso de uma forma natural. Resolvi me casar com o que acredito ser certo, com o que acredito ser minha vocação e acredito que em qualquer casamento, existem desavenças. Meu casamento com a filosofia também teve e terá muitos processos dolorosos, mas enquanto eles existirem ainda serei apaixonada pelo que faço: filosofia.

Um comentário:

Anônimo disse...

Surpreendente como diálogos nada a ver podem desembocar nisso! Adoro nossas conversas e os seus textos que só reafirmam os meus pensamentos soltos por aí. "Eu só sei fazer filosofia".