Notas Iniciais.
Este é um relato de tudo o que tenho passado nos últimos meses dentro do meu relacionamento. Não quero por nomes. Isso é muito mais um retrato do meu estado mental do que de qualquer relação em si. O que pretendo? Se pretendo... Pretendo que aqueles que possam vir a ler estas linhas - escritas sob tantas lágrimas e, agora, debaixo de alguns traços de esperança - possa detectar em seus próprios relacionamentos presentes, passados e até mesmo futuros as atitudes que nos tornam dependentes de nosso próprio relacionamento.
Minha personalidade e minhas atitudes: um passo incerto que me direcionou à uma queda livre em direção à instabilidade emocional.
No começo de tudo, geralmente, as coisas são boas, ótimas. Existe a novidade, a esperança, a vontade de estar viva. Eu me sentia amada, desejada. Haviam discussões, mas ela sempre acabavam bem, sempre surgiam com o intuito de acrescentar, fazer crescer. Nada fazia com nos abalássemos. O ciúme dele, minha necessidade de carinho constante. Tudo fluía em intenção de construir e não de destruir.
Eu tinha péssimos hábitos de independência extremada e falta de consideração pelo sentimento alheio, no caso, alguns que ele sentia. Muitas vezes, queria passar a idéia de que era uma mulher madura, que sabia o que queria. E sabia mesmo. Queria mesmo. Agia com o coração e muitas vezes era de extrema passionalidade e fervorosidade em relação às coisas que me eram preciosas.
Não me importava muito com onde aquilo poderia dar, porque ainda não me permitia estar apaixonada por ele. Negava meus sentimentos. Até que por fim veio a confirmação, ele mesmo disse, na minha frente que não estava apaixonado por mim. Aquilo me destruiu. Senti o peso da paixão reprimida me apertar o peito e chorei. "Ele não está apaixonado por mim." - a esta altura estávamos juntos há uns 3 meses. Convivendo dia-a-dia, dividindo intensamente nossas idéias, necessidades e desejos. E mesmo assim ele não estava apaixonado por mim.
Aquilo que eu dizia prá mim mesma tornou-se real. Teria de aceitar que ele não era apaixonado por mim. Mas, como? A rejeição é difícil para qualquer pessoa. Após 2 anos de um relacionamento muito difícil ao encontrá-lo, permaneci ao seu lado, mantive-me fiel, mesmo sem ter um compromisso assumido. Como poderia, eu, após deixar tantas oportunidades de estar com outras pessoas que eu também desejava, aceitar que aquele que me impunha a castidade não era apaixonado por mim?
Aos poucos, percebi que agia como todas as mulheres do mundo: buscava alguém com quem gostaria de partilhar toda a minha vida. Buscava segurança, estabilidade para poder realizar meus sonhos mais primitivos de constituir uma familia. Vendo assim, não era nem nunca fui independente. Não era uma mulher moderna. A constatação desse fato machucou mais do que a rejeição em si. "Vivi dormindo desde o ultimo relacionamento, não sei nem quem eu sou." - pensei.
Ao assumir que eu não era aquela mulher que mostrava para ele ser, como deixar de mostrar isso? Como fazê-lo entender que meus verdadeiros sonhos não eram abraçar o mundo, viajar e ter vários amantes e experiências amorosas, mas sim, uma casa no campo, três filhas, cães e gatos, um quintal bonito, com flores e uma pequena horta? Como eu previ, ele não entendeu. E não só não entendeu, como repudiou estas idéias. Dizia-me: "Quero isso. Mas não agora." e se afastava lentamente de mim. Mas, eu ver essa reação exagerada pensei: "Mas quem disse que quero isso agora?".
Em conseqüência deste fato, nosso relacionamento começou a se transformar em um amontoado de brigas intermináveis durante a madrugada. Panos rasgados, corações partidos e falta de confiança eram o prato principal. Eu não conseguia fazê-lo feliz porque ele acreditava que se demonstrasse felicidade ao meu lado eu logo faria com que ele assinasse o contrato de união estável. A esta altura fazíamos 10 meses de namoro, com direito a alianças voando e lágrimas convulsivas.
As atitudes que minaram meu relacionamento são mais comuns do que podemos imaginar.
Dentro desse turbilhão todo, conseguíamos ter dias felizes. Mas estávamos sempre alertas. O menor vacilo, a menor possibilidade se transformava em um guerra. Nenhuma conversa poderia ser estabelecida sem que um briga fosse sua conseqüência. Até que o dia que eu temia chegou: ele me disse: "Preciso de um espaço dentro do nosso relacionamento.". Minha alma cabia dentro de uma caixinha de pingentes, daquelas mais baratas e pequenas que se possam imaginar.
Nosso relacionamento estava difícil, pesado. Uma constante insatisfação entre nós dois, até mesmo na cama, nos separava. Mas aquilo era demais para mim. "Espaço para quê? Quando eu precisei de espaço ele não me deu." - não aceitar isso foi meu segundo erro crasso. O primeiro foi não impor minha necessidade de ficar longe quando precisei.
Nesta época estava passando por uma série de problemas e não tinha vontade de sair da cama. E eu via que ele estava me abandonando, mas não conseguia reagir, lutar por isso, justamente porque não achava que seria necessário. Achei que ele entenderia e respeitaria essa fase e mais do que isso, que me ajudaria. Esse foi meu terceiro erro: acreditar que ele, o cara que disse que não era apaixonado por mim, me ajudaria a enfrentar um momento difícil. A confiança se quebrou. E o medo que adquiri dele permaneceu durante muito tempo assombrando nossa relação.
Ele me pediu outra chance e iniciamos o ano tentando colar as peças do meu coração partido. Porém, por mais que se cole, sempre restam marcas. Meu quarto erro foi não dar atenção ao que eu precisava e ceder à ele, permitindo que ele entrasse mais um vez em minha vida, em minha casa e sentasse no lugar de honra: meu coração.
Na tentativa de superar sozinha os problemas criados por duas pessoas, não só entreguei mais um vez meu coração como entreguei minhas forças. E trabalhei duro todos os dias para fazê-lo feliz. Se ele não gostava de vermelho eu não usava, se reclamava que eu ligava demais eu deixava de ligar até mesmo quando realmente precisava. Se ele dizia que gastava demais com celular e mensagens eu cortava o hábito de mandá-las por completo. Se ele dizia que eu fazia algo demais eu parava de fazer. Se falava que fazia algo de menos eu rapidamente iniciava o movimento para satisfazê-lo mais uma vez. Esse foi o meu quinto erro: me doar completamente para satisfazê-lo a ponto de perder minha identidade, minha força de vontade, minha liberdade e minha paixão pela vida.
Quando ele terminou comigo, dizendo que não me amava mais eu só pude chorar, caí no chão e chorei infinitamente, soluçava e não conseguia falar. Gritava com ele: "Eu te dei tudo o que eu tinha! Te dei minha vida, meu tempo, meu amor, meu carinho! E agora você diz que não me ama mais?".
A imagem que se formou na minha cabeça era oposta a que eu tinha no meu coração. Achava ele novo, inexperiente. Achava que com o tempo ele seria melhor, ele entenderia minha natureza e seria gentil comigo. Esse foi meu sexto erro: acreditar que ele poderia mudar, mesmo depois de ouvir isso sem ver a concretização da promessa.
As tentativas de consertar o que estava esmigalhado, as promessas vazias e a repetição dos erros.
Nesse período de 1 ano e meio, terminamos e voltamos tantas vezes que cheguei a ficar confusa em relação ao que eu era para ele. E todas as vezes que eu voltava com ele, fazia exatamente as mesmas coisas. Achando que ele não se doava por não estar preparado para estar ao meu lado. E esse foi o meu sétimo erro: amenizar sempre a culpa que deveria implicar em mudanças de atitudes do lado dele.
No final de tudo, estava amarrada, completamente dependente do meu relacionamento. Sem conseguir terminar, mudar minhas atitudes, ele infeliz, eu infeliz. As brigas continuaram, cada vez piores, eu perdi o controle com qualquer coisa. Gritava. Me sentia um lixo constantemente perto dele. Achava que ele não me amava porque eu era feia, gorda, burra, sem senso de humor, e em conseqüência disso fui ficando cada vez mais deprimida. E ele cada vez mais cansado de ter um "fantasma" do lado dele.
Não faço a menor idéia de como solucionar esse problema. Tento de todas as maneiras encontrar a minha auto-estima, de voltar a fazer as coisas que me apaixonam. E isso tem sido uma forma de cura. Mas, quanto mais me liberto desse relacionamento, mais distante dele eu fico. Talvez, só quando estiver totalmente distanciados, com todas as feridas fechadas é que poderemos construir nosso relacionamento de novo.
Em todas as tentativas eu mudava da água pro vinho para que assim eu pudesse fazê-lo feliz e dessa maneira eu pudesse enfim receber o que eu achava que era direito meu. Até perceber que não posso mudar a cabeça ou o sentimento de qualquer pessoa sem que eu seja quem devo ser. Essa foi a lição mais importante. Porém, o custo que ela teve e as conseqüências que ela trouxe não deveriam se pagos ou vividos por ninguém. Erros são passíveis de ser vividos. Mas ao ver seu objeto de amor transformar-se em algo que você tem medo, como reverter a situação? Como sair dessa teia?
Termino esse post sem nenhuma conclusão. Apenas com a perspectiva de que o primeiro passo para deixar de ser dependente é parar ser dependente em suas atitudes. O retrocesso é necessário, voltar a ser o que se era antes do relacionamento (com as ressalvas necessárias) é a primeira atitude de auto-amor.
Um comentário:
Interessantíssimo o teu post. - Não, não nos conhecemos. Mas tomei a liberdade de postar sobre esta sua elucidação. Trouxe-me a tona algumas cenas de minha vida. Muito bom, parabéns!
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