segunda-feira, abril 27

Passagem

Eu vi você de longe. Amaciei seus cabelos, apertei sua mão. De longe. Não tive coragem de mostrar-me, ao contrário, me escondi atrás de uma árvore. Aquilo tudo que existia, existe. Dúvidas embaçam meus óculos. Como posso estar perto e estar longe ao mesmo tempo?

A vida passou atrás de você enquanto eu olhava e decidia se chamava ou não. Não chamei. Não olhei prá trás. Não pensei duas vezes antes de dizer tchau. Não quis conversa nem visita. Não quis café nem calmante. Quis somente aquele momento. Aquele. Em que você passava e eu ficava. Esperando.

E as esperas me fazem bem ou mal. Não importa. Ao mesmo tempo, você andava e meus passos parados no ar, suspensos, travados, fincados no chão não andavam. Não mexiam enquanto você passava. Passavam pássaros, formigas e lagartos. Não prá mim. Aquele momento - só passava você. Será que passava também em minha vida? Ou somente na calçadinha - indo prá casa?

Sensação de que me deixava. Ou eu te deixo e nem percebo? Quanto tempo? Eram três da tarde. Chorei e não sabia porque. Não via motivos. Via a passagem. Os passos, as passadas. Cabeça baixa prá esconder as lágrimas, me escondi prá que não me achasse. Nem percebe. Nem nota que enquanto você passa, passado meu volta e revolta dentro de mim. Não acusa - mudo - que a distância eu que causei.

Depois da festa feita - dos copos quebrados - existe o vinho no chão. Quando? Onde? Por que? Não sei. Não quero saber. Quero ver aquele momento que passa. E eu, como que escondida da vida atrás da arvore, não vi os passos que dei. E eu, como que fugindo da vida atrás da árvore, passei.

Como explicar?

Como explicar que a distância existe antes em nossos corações que nos metros que nos separam?
Como explicar que as pessoas morrem cedo ou tarde?
Como explicar a ausência?
Como explicar o passado?
Como explicar o amor?
Como explicar a falta de sinceridade?
Como explicar a saudade?
Como explicar que nada mais é tão belo quanto foi há um segundo atrás?
Como explicar que as coisas mudam?

sexta-feira, abril 17

Fado Tropical

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa...

Chico Buarque e Ruy Guerra

sábado, abril 11

Perdi, perdas.

Perco as contas daquilo que deixo de fazer. Dos sonhos desfeitos, das almas que carreguei. Perco as contas daqueles que amei e que joguei fora. De todas as chances, os lances perdidos no mundo, dos chutes na trave. Perdi as contas dos amores engarrafados. Das dores que deixei pra lá e das vontades não cumpridas.
Perdi as contas.
Perdi os rumos.
Perdi os sonhos.
Perdi a vontade de viver.
Perdi meu coração em algum lugar...
Esqueci-o e ele mo esqueceu...
Perdemo-nos...
Perdi.

O que sou eu

Sou uma alma pequena
Transviada
Subversiva
Sou uma filhadaputa
Enlouquecida
Perdida
Sou uma tranqueira
Carregando badulaques
Comendo bobagens
E vomitando sonhos

Desabafo

Diante de tudo, poucas coisas são uma opção. Sinto dentro de meu peito a mesma raiva, a mesma fúria que sentia anos atrás. Indomável, meu espirito rebela-se contra mim e quer seu caminho, quer suas vontades, quer seus sonhos e deixa-me, perante os outros, um ser frio e distante.
O que fazer quando o que se sente não correponde à realidade dos fatos? Quando não nos sentimos acolhidos e bem-vindos? Quando nos sentimos culpados?
O que fazer?

Duas coisas marcantes demais aconteceram em minha vida. Duas coisas dobraram meu ser dentro de si mesmo e o grito e as lágrimas que deveriam ir prá foram, entram e calaram-se. Permanecem congeladas, estáticas, fixas aqui e em qualquer outro lugar, permaneceriam assim... Por quanto tempo?

sexta-feira, abril 3

Pirataria

Quem falou que não pode ser?
Não, não, não, eu não sei por quê
Eu posso tudo, tudo!
Me disseram pra não dizer
Não, não, não, eu não sei o quê
É absurdo, eu não sou mudo!
Quem falou que não pediu pra nascer?
Não, não, não, não...
Eu sinto muito, vai ficar pra outra vez.
Não é possível ser pirata em paz
Que um transatlântico vem logo atrás
Eu sei que ele está perseguindo
O meu tesouro escondido, não, não!
Quem falou que não pode ser?
Não, não, não, eu não sei por quê
Eu posso tudo, tudo!
Me disseram pra não dizer
Não, não, não, eu não sei o quê
É absurdo, eu não sou mudo!
Quem falou que não pediu pra nascer?
Não, não, não, não...Eu sinto muito, vai ficar pra outra vez.
Enquanto isso, eu continuo no mar
A ver navios pra poder navegar
A nau dos desesperados
Navio fantasma e seus piratas pirados!
Não, não!
Meu bem, vai ficar pra outra vez!
Oh, meu bem, vai ficar pra outra vez

Rita Lee e Lee Marcucci

Preocupações

As preocupações me alucinam. Quase uma droga, uma necessidade - inventar algo que me traga problemas. Vicío mesmo. Febril eu levo a minha vida e calada observo as coisas que não gosto. Atualmente só me retiro, quieta.
Não quero mais saber de nada disso. Vou cuidar de mim...
Vou cuidar mais de mim...
Ou não.
Mas, o fato é que, "enquanto eu puder sorrir, enquanto eu puder cantar, alguem vai ter que me ouvir." - Faço minhas as palavras de Chico... Ah! Chico...
Saudades....

Amigos, amigos. Negocios apartam.

Sabemos bem que os amigos são importantes e tal e coisa e coisa e tal. Durante toda a nossa vida teremos as mais variadas e infindáveis possibilidades de amizades, boas ou más, pequenas ou grandes, e, diante disso, existem coisas que os amigos compreendem e passam pra frente. Além disso, sabemos também que os amigos, sejam quem forem e façam o que fizerem, possuem suas caracteristicas particulares e os sonhos necessários para sua própria exitência. Nada mais justo. Nada mais justo que respeitemos sua individualidade e seu modo de pensar e suas virtudes e seus desembaraços diante do mundo, bem como seus defeitos e suas esquisitices que todo mundo tem - não adianta, todo mundo tem.
Porém, as vezes, a amizade se torna pesada e infeliz, diante de tais coisas, sabemos que nada podemos fazer. Que o fulano(a) está em uma fase diferente, está mudando, etecetera e tal. E eu com isso?????
Amigos, amigos... Os negócios apartam.
Diante de algums possibilidades da vida e mudanças necessárias, algumas coisinhas começam a incomodar, as pessoas, tomam rumos diferentes, querem coisas diferentes. Esses negócios apartam aqueles amigos que antes não imaginávamos ver separados. A presença de um necessáriamente exigia a presença do outro. Porém, nem sempre as amizades resistem as coisas. E quantas coisas!!!

A sua amizade... ela resiste? Quanto tempo?

"Todos os copos de vidro são passíveis de serem quebrados."