Notas Iniciais
Embora não pareça, esse post será positivo. Na verdade, ele é mais uma investigação do que seria se decepcionar e do porquê nos decepcionamos nas nossas relações com pessoas, animais, coisas e escolhas. Espero que isso lhes seja útil, pelo menos no sentido de reflexão sobre a maneira como você se relaciona com o seu universo.
Por que nos decepcionamos?
Hume já nos falava de uma vida mental ativa e viva, ou seja, tudo o que pensamos, conhecemos, nosso preceitos, preconceitos, nossas imagens mentais que representam coisas, tudo isso, toda a nossa atividade mental é viva na perspectiva desse autor. Viva no sentido de que tem vida, se modifica, evolui, morre. Por esse motivo, nosso pensamento pode mudar ao longo dos anos, porque ele é vivo. Agora, o que isso tem a ver com o tema? Eu lhes digo: tudo.
Parto do princípio de que todos concordam que as decepções ocorrem quando queremos uma coisa e essa coisa não acontece ou não acontece do jeito que queremos. Muito bem, nesse sentido, querer que as coisas aconteçam de um certo jeito está baseado na nossa vida mental, ou seja, queremos que as coisas sejam o que temos em nossa mente que elas deveria ser e não o que elas são de fato. O tempo todo estamos fazendo representações mentais do futuro, do namorado(a), do(a) melhor amigo(a), dos(as) filhos(as), das mães e até mesmo de coisas como filmes, lanches, sofás, cadeiras, mesas. E aí? Onde entra a decpção nisso?
Fica mais do que claro, que quando essas representações mentais nossas não se encaixam na realidade, ficamos decepcionados. Ficamos decepcionados porque o(a) namorado(a) não quer mais agir de um determinado jeito, porque a mesa da cozinha que foi presente de casamento não vai durar mais que 2 meses, porque o lanche que paramos para comer na esquina não estava tão bom quanto poderia estar e assim vai. Nos decepcionamos porque não conseguimos separar aquilo que pensamos que é daquilo que realmente é. E isso não é uma tarefa fácil, é dificil desapegar da vida mental por alguns instantes e deixar que a realidade surpreenda-nos.
O movimento da decepção.
Pode não parecer, mas a decepção tem um movimento. Não é um simples sentimento, que surge quando as coisas não saem como queremos. Nesse surgir, existe um movimento e de resistência e inteligência. Sim, inteligência. Todas as coisas inteligêntes se decepcionam, porque elas te a capacidade de inteligir, ou seja, perceber o que está a sua frente e processar aquilo mentalmente. A resistência se dá quando, nesse processo, ao invés de somente apreender existe a comparação do que se acabou de apreender com uma imagem mental pré-estabelecida. Normalmente, é imagem mental que "ganha" essa comparação. Daí nos decepcionamos.
Acontece que nada real pode ganhar de algo que existe só na sua cabeça. O principe encantado ou a princesa não deveriam competir com o parceiro real, porque é injusto com toda a relação, a moça por mais prendada que seja, nnca alcançará aquele nível de perfeição que a princesa mental tem, simplesmente porque é impossível, ser real tem suas limitações e suas vantagens também.
Entender que existe essa diferença é o primeiro passo para se ter relações saudáveis com tudo: desde de você mesmo até pessoas que você nunca viu. Desde seus objetos até futuro objetos que você terá. O problema aqui não é ter uma vida mental viva e ativa, isso é necessário para que possamos viver, o problema se encontra em tentar adequar o que se tem na cabeça com o que está na realidade, quando na verdade esse movimento nem precisa existir.
Aceitação X Conformação - ou como evitar decepções.
É necessário que aceitemos que as coisas são como são, ou seja, as pessoas tem defeitos e vontades próprias, as coisas tem um tempo de vida útil e frustrações fazem parte da vida. Evitar se decepcionar tentando obter 100% de controle sobre a realidade é um suicidío mental e real.
Existem 3 coisas que devemos saber que são "verdades" e que chegam a qualquer momento:
1- a morte vem para todos, isso é só uma questão de tempo.
2- nada é imutável.
3- não se pode prever o futuro.
Quando nos damos conta desta realidade, tudo o que fazemos é aceitar determinadas coisas. Porém, veja bem, não estou dizendo que devemos aceitar tudo e não tentar mudar nada. Mas, a aceitação da qual eu falo passa pelo viés da realidade, com o tempo, percebemos aquilo que pode fazer diferença e aquilo que é teimosia, o que poderia ser mudado e o que é apenas uma expectativa irreal. Aceitar não é conformar-se, aceitar é entender que muitas vezes fazemos as coisas e elas não saem como o planejado ou a maneira como o outro a recebe não era bem a que queríamos.
Não dá prá prever o futuro nem como as pessoas vão entender seu comportamento, devemos aceitar isso, pois ao aceitar eu me torno real, estou conectado com aquilo que eu acredito e desejo e não me importo se não de certo na primeira vez. A aceitação dessas 3 verdades nos torna seres humanos reais e com expectativas reais sobre as coisas e pessoas e dessa forma, 95% das nossas frustrações se vão, porque deixaremos de tentar adequar a realidade a nossa vida mental, mas passaremos a enxergar ela como ela é.